
Acabo de ler agora: "A hora da estrela" de Clarice Lispector. Ainda estou tonta e não consigo definir essa obra. Tudo o que sei é que deveria chorar a vida e a morte de Macabeá (olha eu entregando a estoria), e por qual motivo meus olhos permanecem secos? Acho que é o chamado comodismo. Nós nos acostumamos com as coisas e como Macabeá acreditamos que tem que ser assim e ponto.
Desde o inicio o autor já nos anuncia o trágico, desde o inicio ele já nos tira a esperança, e assim nós conseguimos sem revolta (como a propria Macabeá) e achamos normal que a vida prossiga ruim.
E a grande tragedia não são meus olhos secos perante a literatura, e sim sua sequidão perante a realidade da propria vida que enxergamos (ou deixamos de enxergar) nas pessoas que vemos diariamente.
Estamos tão indiferentes, tão presos dentro de nós e de "nosso mundo" que não damos a minima atenção para as pessoas até mais sofridas do que Macabeá e que as vezes precisam apenas de um sorriso.
Mas uma coisa me admira muito em Macabeá, ela não sabe que é infeliz, sei que é por isso que ela vive no conformismo, mas também é exatamente por isso que sua existencia vale a pena. Quantos são felizes e não sabem? Acho que a felicidade é uma escolha e ponto. Quem disse que ela precisa estar atrelada a acontecimentos externos e circunstancias? Ela por si só é um acontecimento interno.
Quanto mais a literatura me apresenta as mazelas humanas, eu percebo que elas estão escritas nos olhos que evito encarar diariamente e então percebo duas verdades: 1º É injusto me sentir infeliz, quando coloco meu motivo diante do outro; 2º Mudar esse cenário está em nossas mãos, e o pouco que eu posso fazer somado ao pouco que cada um pode fazer torna-se grande.
Vou terminando as linhas por aqui, mas não termino minha reflexão, porque Macabeá, embora em sua vida tenha passado desapercebida, tem me rendido infinitos pensamentos.

Acho que essa foi uma das mais legais sacadas que li sobre o `resultado` de ler A Hora da Estrela: o injusto de se sentir infeliz. É perfeito e algo que vejo em um número grande de pessoas essa vontade, ou essa percepção, de que simplesmente não podemos nos sentir infelizes. E é também interessante que dizer isso pode soar tolo - alias, me parece que uma bela parcela das pessoas tende a ler a ideia como boba, infantil, menor, qualquer coisa assim: é como se fossemos obrigados a nos sentir infelizes já que o mundo é como é, todas essas mazelas e tudo o mais. Como se só na infelicidade se pudesse fazer algo. Como se só o sério fosse sério. Graças aos deuses vem você e fala no injusto de se sentir infeliz - e esmigalha esse conceito de chumbo. Ótimo!
ResponderExcluirO mundo está cheio de Macabeás, caso contrário as mulheres ainda não seriam tão discriminadas.
ResponderExcluirLi o livro e vi o filme...Muito bom!